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Avaliação da conjuntura nacional feita pelo presidente da CUT/RS, Claudir Nespolo, durante a última reunião do ano do Conselho Geral de Representante do SPMG/Sindicato, no último dia 03 de dezembro, apresentou diversos pontos para compreensão e reorganização do movimento sindical. “Todos os direitos conquistados desde a era Getúlio Vargas estão em cheque nesse momento. Os governos Lula e Dilma estavam trancando a pauta das reformas, que já estavam acontecendo em diversos países. 113 países fizeram reformas trabalhistas ou previdenciárias nos últimos 12 anos. Todas, abrindo as portas para a terceirização e acabando com a jornada fixa e o salário fixo”, argumentou o dirigente.

 

“O capital brasileiro olhava para o que estava acontecendo em outros países e tinham uma ansiedade em criar um ambiente igual no Brasil. Esse foi o golpe.”

 

 

PRÉ-SAL
Nespolo destacou outro fator para que os interesses econômicos favorecessem a ascensão da extrema direita no país. “A descoberta do pré-sal, em 2005, despertou o interesse do mercado. Primeiro, tentaram desbancar a descoberta do pré-sal, e, depois, quando viram que a viabilidade de exploração do petróleo em camadas profundas era real, o país atraiu a atenção mundial. Lula fez uma mudança que incomodou muito o mercado, passando a modalidade de exploração do petróleo em terras brasileiras de concessão para partilha. Ficaram mais incomodados ainda com a exigência de que a produção dos equipamentos e máquinas fosse nacional.” Em sua avaliação, as forças políticas vinculadas ao mercado internacional não reagiram tão ferozmente naquele período porque acreditavam que iriam derrubar o governo dos trabalhadores na eleição de 2010 e que voltariam a ter hegemonia para mudar e colocar em prática suas políticas. “A eleição da Dilma fez com que percebessem que esse modelo não sairia mais. E, a partir daí, começaram a se organizar com ataques sistemáticos, criando as condições para o golpe de 2016, que já veio com a proposta do PMDB (MDB) ‘A ponte para o futuro’.”

AS REFORMAS
Com o impeachment da presidenta Dilma foi instalada a pauta das reformas. A primeira aprovada foi a PEC 240, que se transformou na Emenda Constitucional (EC) nº 95, sancionada em dezembro de 2016. As despesas primárias do orçamento público foram congeladas por 20 anos, limitadas à variação inflacionária. A medida está em vigor há dois anos e já ocorre prejuízo nas políticas públicas ofertadas à população. “O segundo ponto era a reforma da previdência social, mas como é mais complexo, ganhamos o debate na sociedade, fizemos a maior greve geral no dia 28 de dezembro de 2017. Empurraram a esta pauta para frente e passaram para a votação da reforma trabalhista. Nosso maior questionamento é: o déficit da previdência acontece antes da DRU (Desvinculação de Receitas da União) ou depois? É antes da sonegação ou depois da sonegação? O que querem de fato é que a previdência administrada pelos fundos de investimento privados, os bancos”, explica Nespolo.
“Depois puxaram a reforma do ensino médio, a terceirização, a reforma trabalhista, e levaram a cabo a alteração no pré-sal. Desmontaram a indústria naval. O que foi uma tragédia, em especial para as cidades de Pelotas e Rio Grande, aqui no Rio Grande do Sul. Perdemos empregos e a circulação da nossa riqueza dentro do país. Estamos com um punhado de formas de contratação, com período maior de trabalho e salário menor. Só não está mais acelerado porque eles ainda têm medo, não há segurança jurídica nas alterações.”

SERVIÇO PÚBLICO
O presidente da CUT/RS lembrou que as reformas realizadas ao redor do mundo, motivadas pelos interesses do mercado neoliberal, assim como no Brasil, retiram direitos conquistados também no serviço público, pautadas pelo interesse na apropriação dos orçamentos públicos. “No Congresso, há um número enorme de leis represadas, todas direcionadas ao desmonte do serviço público. No caso da previdência, em especial, não querem o Estado como gestor da previdência social, para que estes recursos sejam administrados por fundos de pensão.”

LUTA DE CLASSES
“É uma luta de classes”, enfatiza o dirigente. “Nossos pais nos diziam: estudem, para terem melhor condições. Agora, não podemos dizer isso aos nossos filhos. Será uma geração que não terá as mesmas garantias de trabalho que nós tivemos.” Nespolo questionou a organização das estruturas de poder no país. “Quem é o judiciário brasileiro, quem são os delegados? Ao longo do tempo foram sendo assegurados para a elite diversos privilégios. Nas carreiras da segurança pública ou do magistrado, só quem consegue ascender são filhos de uma elite. Os critérios de seleção levam a isso. Quem tem na família um juiz ou desembargador? Isso nos leva ao julgamento do Lula e a comparação com a situação do Aécio. Um, condenado e preso sem provas, o outro, com todas as provas, está solto. Mas isso acontece porque é preciso conter o Lula.”

ELEIÇÃO
De acordo com Nespolo, o poder econômico não queria ganhar com o Bolsonaro. “Apostavam em outros nomes da direita. Mas teve um fenômeno no meio do caminho, a facada, que o transformou em vítima e isso, no senso comum da população, junto com as fake news, disparadas de forma organizada para milhões de pessoas, levaram a sua eleição. Sobrou o Bolsonaro para vencer no primeiro turno e garantir a pauta.”

“Foi uma eleição fraudada e manipulada. Prenderam o Lula sem provas para retirá-lo das eleições.”

FAKE NEWS
“O debate chegou às camadas mais populares. Criaram um aparato de informações falsas. Na educação, criaram o imaginário da distribuição da mamadeira com pênis e, em conjunto, o debate de que não se pode falar em sexo na escola, só os pais podem, em casa. Assim também com a adulteração de uma imagem onde a Manuela cospe na imagem de Jesus Cristo. Vencer essa adulteração da realidade, estrategicamente forjada para ganhar adesão massiva de segmentos da sociedade será um grande desafio. O panfleto e o noticiário não terão força, enquanto que as notícias falsas continuarão a chegar. As pessoas estão se informando e dando credibilidade ao que chega pelo Whatsapp e Facebook.”

REAÇÃO
“Vamos seguir com a corda esticada, lutando, para resistir ao aprofundamento da concentração de renda. O meu papel como dirigente sindical é trazer clareza sobre este momento e ver com os trabalhadores de que forma vamos fazer o enfrentamento. Vai exigir muito do movimento sindical, das entidades e dos representantes, para manter uma postura de esclarecimento e de comunicação com as pessoas, direto na base. Não vai adiantar o ‘eu avisei’. No momento estão avaliando de forma positiva as tiradinhas do Bolsonaro. Precisamos continuar defendendo a pauta e trazer de volta quem embarcou nesse processo.”
Nespolo afirmou que as centrais e a CUT estão agindo para que os sindicatos se fortaleçam e aprimorem o trabalho de base, com informação boa e inteligente. “Precisamos ficar atentos para não cair nessa cortina de fumaça das fake news em cima de pautas morais. O que interessa agora é o que o Guedes está falando.”

CICLOS
“Tudo é ciclo, já foi muito ruim lá atrás, depois tivemos pleno emprego e perspectivas de melhora. Agora ficou ruim. Mas vejamos Portugal e Espanha. Os governos de lá, que há 15 anos assumiram o neoliberalismo, agora estão recuperando direitos.”

POSICIONAMENTO CONSCIENTE
“Somos uma base classista. Não somos os partidos, não fazemos lei, então isso tem que estar na nossa reflexão e por isso o nosso posicionamento deve ser consciente. Não sejamos ingênuos na defesa do nosso projeto. Em 2020, teremos eleição. Se continuar nessa lógica, teremos vereadores fake news com a caneta na mão para tomar decisões. O papel do sindicato é fazer a reflexão com a sua base e continuar a luta.”

Por Silvia Fernandes – jornalista Mtb 11137


Compreender, dialogar com a base e seguir na luta

Fundado em 03 de dezembro de 1988, logo após Constituição Federal, que permitiu a organização sindical dos servidores públicos, o SPMG Sindicato completou, nesse 03 de dezembro, 30 anos de luta em defesa dos trabalhadores em educação e da educação pública de qualidade. O aniversário de fundação foi comemorado durante a última reunião do ano do Conselho Geral de Representantes, na sede do Sindicato.
A atividade também contemplou a discussão sobre a hora atividade nas séries iniciais, aposentadoria especial, ações judiciais e planejamento 2019.
A avaliação do cenário nacional sobre o luta dos direitos dos trabalhadores contou com a participação do presidente da CUT/RS, Claudir Nespolo. “Todos os direitos conquistados desde a era Getúlio Vargas estão em cheque nesse momento”, afirmou o dirigente, que apresentou diversos pontos para compreensão e reorganização do movimento sindical.


SPMG completa 30 anos de luta

A direção do SPMG representou o Sindicato na reunião ampliada da direção estadual da CUT/RS, na manhã dessa quarta-feira (21/11), que contou com a participação do ex-ministro das Relações Exteriores e ex-ministro da Defesa, Celso Amorim. Ele analisou a conjuntura nacional e internacional após a vitória de Bolsonaro e apontou os principais desafios para as lutas em defesa dos direitos dos trabalhadores, da democracia, da soberania nacional e contra as desigualdades no Brasil.

Estiveram na atividade a presidente do SPMG e tesoureira da CUT/RS, Vitalina Gonçalves, a 2ª vice-presidente, Silvina Assis Peres da Silva, e a 1ª secretária, Giovana Lenzi da Silva.

O Brasil apequenado de Bolsonaro, aponta ex-ministro Celso Amorim em Porto Alegre

Celso Amorim, conversou com o Jornal Extra Classe, no saguão do hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre, sobre as polêmicas internacionais envolvendo o governo eleito. Ele fez considerações sobre as declarações do futuro presidente, que levaram o governo cubano a sair do programa Mais Médicos no Brasil, o anúncio da transferência da embaixada em Israel para Jerusalém e o alinhamento subserviente do Brasil aos interesses norte-americanos.

Quem é Celso Amorim

Celso Luiz Nunes Amorim tem 76 anos e serviu ao Itamaraty desde os governos militares, após formar-se no Instituto Rio Branco, em 1965, quando obteve, logo a seguir, o título de pós-graduação em Relações Internacionais pela Academia Diplomática de Viena, na Áustria, em 1967.

Ele se graduou em primeiro lugar de sua turma no Instituto Rio Branco e, como prêmio, foi enviado em 1966 à Academia Diplomática de Viena, onde ele terminou a sua tese e retornou ao Rio de Janeiro, antes de ser enviado para seu primeiro posto como diplomata em Londres. Em 2009, o articulista David Rothkopf, da revista estadunidense Foreign Policy, indicou Amorim como “o melhor chanceler do mundo”.

Confira a íntegra da entrevista!

Extra Classe – Existem farpas recíprocas entre o senhor e o atual indicado para o cargo de Ministro das Relações Exteriores que, inclusive, disse que buscaria “possíveis falcatruas suas”, após críticas que o senhor teria feito ao projeto de Ernesto Fraga Araújo para o Itamaraty, que seria, na sua opinião, medieval.

Celso Amorim – Da minha parte não há farpa nenhuma. Pessoalmente não tenho nada contra o Ernesto Araújo, inclusive devo tê-lo promovido umas duas vezes, quando ele era funcionário do Itamaraty por indicação de seis ou sete coordenadores. Não tenho nada a comentar sobre os ditos dele a meu respeito.

Minhas críticas são de ordem política e não pessoal, e a partir das ideias dele sobre a política externa publicadas em seu blog. Principalmente ao artigo sobre o Trump de que discordo totalmente. Talvez eu tenha feito alguma metáfora um pouco forte que possa tê-lo incomodado.

EC – E que críticas exatamente o senhor faz?

Amorim – Mas na verdade, o que eu quis dizer é que há um retrocesso, não apenas um retrocesso em relação ao que representou o governo Lula, em termos de política internacional e projeção do Brasil no cenário mundial. Mas existe um retrocesso, ao menos anunciado na retórica do futuro governo, em relação aos governos anteriores, de Fernando Henrique Cardoso, Itamar, Collor, Sarney e até mesmo aos governos militares.

EC – Inclusive o senhor atuou nesses governos anteriores como diplomata e embaixador.

Amorim – Sim, fui embaixador na ONU com muito orgulho. Nunca me envergonhei do Brasil. Uma vez ou outra discordei lá de alguma instrução. Isso acontece, mas talvez até mais por alguma questão de ênfase do que propriamente de orientação. Uma ou duas exceções. E, trabalhei em postos multilaterais, que têm de focalizar os interesses do Brasil. E no governo Itamar eu fui ministro. E nem se tratava de um governo de esquerda, mas de centro, com viés nacionalista.

EC – Inclusive, do ponto de vista prático e pragmático, nem os governos Lula e Dilma foram de esquerda, na prática sempre estiveram ao centro ou centro-esquerda?

Amorim – Enfim, é o que as pessoas dizem e acabou se convencionando no debate.

EC – E essa mistura de questões de estado com religião evocados pelo próximo governo?

Amorim – Eu não tenho nada contra os valores do cristianismo, mas essa mistura de religião dogmática com política é algo que incomoda muitíssimo. Isso poderia ser com qualquer religião: islã, judaísmo, cristianismo, qualquer uma. Esperemos que o Brasil não passe a viver em um estado teocrático. Eu acho muito incômodo você ouvir dizer, por exemplo, que “a esquerda combate o sexo heterossexual porque não quer que venha um novo messias” ou coisas assim. São coisas difíceis de encaixar como minimamente críveis.

“O Brasil é o único país do mundo que acredita que o comunismo é uma ameaça”. Foto: Marcus Perez/ CUT-RS

EC – Mas esse tipo de pensamento também não está sendo levado para a política externa?

Amorim – E, falando mais especificamente da política externa, fica difícil de aceitar que o Trump possa ser o modelo para o Brasil. Primeiro, porque esse modelo é irreplicável para qualquer outro país, porque a própria denominação América First (América Primeiro) é por si só excludente. O que se faz lá, sob essa concepção, só vai beneficiar os Estados Unidos e mais ninguém. Não dá para pegar carona nessa política. Há uma contradição, em termos, nessa posição e nessa visão de que o ocidente está ameaçado e que o Trump seria o modelo e a China maoísta seria o inimigo.

EC – Muitas simplificações e busca de inimigo único pra compor uma retórica populista?

Amorim – Há uma porção de concepções de que discordo totalmente. É óbvio que o governo Temer já tinha sido, digo já no pretérito perfeito, ou mais que perfeito, que é como se tivesse acabado, né?  A política externa do governo Temer já havia deixado de lado muitas das posições do governo Lula e Dilma, quando se trata de política externa, em que a defesa do interesse brasileiro e a diplomacia são pontos comuns. Mas diria que no governo Temer houve uma regressão mais por abandono do que por convicções. Tirando talvez a questão da Venezuela e do Mercosul, que tiveram posições claramente negativas e ideológicas do que em outros países, que foram pautados pelo descaso.

EC – E um negativo demarcatório?

Amorim – Venezuela e Mercosul eu diria que sim. A exclusão da Venezuela do Mercosul, o isolamento do país, a pouca prioridade dada à integração sul-americana em geral. Não tanto no Mercosul, mas na Unasul, por exemplo, que foi desativada. Em tudo isso houve retrocesso. O Brasil não tomou mais nenhuma iniciativa importante em relação aos Brics. Houve até visitas, mas nada de relevante. Nada importante em relação à África.

Na parte da defesa, teve essa negociação entre Embraer e Boeing, que é um desastre do ponto de vista da soberania nacional e da tecnologia brasileira. Mas digamos assim, as coisas não eram tão verbalizadas. (Nota de redator: União de Nações Sul-americanas (Unasul) é um bloco que reunia os 12 países da América do Sul: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela)

EC – Existe uma retórica do retrocesso?

Amorim – O que está acontecendo agora, no que foi dito, e do que está sendo feito, mesmo antes do novo governo ser empossado é muito diferente. Você dizer que vai transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, por exemplo, é algo que não é A, B ou C, não é contra a Palestina, é contra a ONU, contra todo mundo.  Os únicos que pensam diferente são os Estados unidos e a Guatemala.

O Brasil se torna caudatário de uma política absolutamente voltada para algo que é uma mistura de religião com interesse em lobby. É difícil de definir. Mas, mesmo as pessoas da comunidade judaica brasileira com quem me relaciono e que possuem relações orgânicas com a comunidade nunca fizeram qualquer lobby ou pensaram nisso. Isso vai contra toda uma perspectiva do processo de paz no Oriente Médio.

EC – E o episódio dos cubanos?

Amorim – Essa questão com relação à Cuba vai deixar desassistidos milhares, senão milhões de brasileiros a partir de preconceitos. Cuba, na realidade, faz uma excelente medicina. Os médicos vão a lugares onde ninguém vai. E não é só no Brasil, eles vão na Etiópia, na África do Sul, numa prática sabida e conhecida, inclusive por pessoas que não simpatizam com o regime cubano. Que se existe uma área em que eles fizeram bastante progresso na área de saúde.

Eu conheço isso desde a época do Ministério da Ciência e Tecnologia, em que eu trabalhei no governo Sarney e vamos combinar que o Sarney não era comunista, né? Eu estive em Cuba, fizemos acordos na área de saúde e biotecnologia. São exemplos bastante evidentes desse retrocesso. Tem também as declarações do futuro ministro da Economia, de que a Argentina não é prioridade, de que o Mercosul não é prioridade. Tudo isso choca muito.

EC – E esse conceito estranho, de que fala o futuro ministro das Relações Exteriores, de combater o “globalismo” como se fosse uma conspiração esquerdista mundial?

Amorim – Me parece uma coisa muito exótica. Como se a globalização fosse inventada por uma conspiração marxista. Até os partidos comunistas europeus eram muito críticos à União Europeia, por exemplo, muito embora isso tenha mudado. Então, uma coisa dessas não tem nada a ver com a realidade. É uma invenção. O Brasil é o único país do mundo que acredita que o comunismo é uma ameaça. Repito: é o único!

EC – Qual o efeito prático que esse tipo de política baseada em delírios e invenções pode ter a curto, médio prazo?

Amorim – Possibilidade de ganho econômico eu não vejo nenhuma. Eu prevejo muito prejuízo. A questão dos árabes, por exemplo, já teve o gesto do Egito, cancelando a visita do ministro atual. Obviamente esse tipo de coisa afeta as relações comerciais. É claro que o comércio tem sua lógica própria, mas ela se assenta numa relação política. Essa questão da embaixada em Jerusalém obviamente terá impacto.

O Brasil é hoje o maior exportador de carne cortada conforme os preceitos muçulmanos. E isso outros poderão fazer. Não se trata de uma tecnologia secreta. Qualquer país pode abocanhar esse mercado. Vale lembrar que o Brasil tem historicamente um altíssimo saldo comercial com os países árabes e islâmicos, porque tem o Irã também, que não é árabe, e com o qual o Brasil também mantém relações de exportação. Aliás, poderia exportar muito mais. Também teve as declarações sobre a China. Algumas coisas talvez parem na retórica. Mas, em outras, a retórica tem um efeito importante.

“Nos governos Lula tivemos boas relações com os EUA. Mas essa relação estreita, para não dizer íntima e carnal, declaradamente subserviente parte de uma visão estratégica de que nós somos subordinados a esse projeto de mundo. Como se o Trump tivesse vindo à Terra para melhorar o mundo”.  Foto: Marcus Perez – CUT-RS

EC – A China convidou o PSL e o governo Bolsonaro a conhecer o sistema chinês.

Amorim – Os chineses são pragmáticos e vão tentar manter. Mas eu fico preocupado com essa relação com os EUA.

EC – Por quê?

Amorim – Nós, durante o governo Lula, tivemos excelente relação com os Estados Unidos. O presidente Bush (Filho) esteve aqui duas vezes e colocou um capacete da Petrobras na cabeça, uma coisa que eu jamais imaginaria que um presidente americano faria. Ele foi visitar um terminal de etanol. Nós não tivemos más relações com os EUA, foram boas, mas essa relação estreita, para não dizer íntima e carnal…

EC – Subserviente?

Amorim – Declaradamente subserviente, porque parte de uma visão estratégica de que nós somos subordinados a esse projeto de mundo. Isso é declarado, como se o Trump tivesse vindo à Terra para melhorar o mundo.

EC – Se a América vem em primeiro, é obvio que o Brasil é secundário. Seria isso?

Amorim – (Risos) Isso nos enfraquece muito. Um grupo como os Brics, e já ouvi essa expressão, países que fazem parte passam a ver o Brasil como um Cavalo de Troia. Então, o prejuízo que há na confiança e na credibilidade do país é enorme. E, óbvio que com ou sem Brasil esse grupo seguirá existindo.

Por outro lado, é difícil imaginar que a classe empresarial, que possui negócios com os países sobre os quais foi gerada polêmica, possa ser prejudicada com essas medidas sem que se manifestem em contrário e exerçam pressão política.  A Rússia, por exemplo, o Brasil chegou a vender muita carne para eles. E pra se chegar nisso houve muita conversa diplomática e esforço envolvidos.

EC – Muitos produtores inclusive, do setor da agroindústria também saem perdendo. Como fica isso? Aliás, um setor que ganhou com os governos do PT.

Amorim – Quem mais ganhou com o governo Lula economicamente foi o agronegócio. As exportações aumentaram brutalmente para o mundo árabe, para a Rússia, para a China. A agroindústria ter se voltado contra o PT é uma coisa meio incompreensível. Por que eles têm uma posição tão crítica ao PT e às esquerdas em geral?

Mas, tudo bem, isso é possível. Mas não é uma oscilação como houve entre Fernando Henrique e Lula, se tivesse voltado para uma coisa tipo Fernando Henrique, tipo Alckmin. Eu não seria a favor, mas seria compreensível. O que está havendo é uma coisa muito diferente.

Eu vou evitar qualificativos e adjetivos, mas eu acho que há aí sim, nem vou chamar de retrocesso, porque não encontro paralelo. Simplesmente não há paralelo em termos de verbalização do momento que estamos vivendo. No comecinho governo militar – não falo da parte interna, mas da externa, falo das relações internacionais – teve aquele negócio das fronteiras ideológicas.

Mas poucos anos depois mudou, o Brasil já estava se abstendo da resolução sobre Cuba, com quem nunca rompeu relações e nunca dificultou nem se falou nada que criasse problemas com a relação com a União Soviética. Tinha até uma divisão do Itamaraty, que se chamava Coleste, que travava com os países do Leste Europeu, que se diziam comunistas. E, isso, no regime militar.

EC – Havia mais equilíbrio?

Amorim – Nós tínhamos uma visão de um mundo equilibrado. Não era um mundo pra todo mundo fazer só o que a China quer, que a Rússia quer ou os Estados Unidos. Não, pelo contrário. Haviam relações fortes com os Estados Unidos. Eu me lembro de uma conversa com a Condolezza Rice de que era importante ter uma cooperação Brasil e Estados Unidos na África para equilibrar outras influências também.

É um jogo como é o jogo da política internacional. Não é você se colocar totalmente nos braços de um ou de outro. Ainda mais um país grande como o Brasil. Ainda se fosse um país pequeno do Caribe ou da América Central seria mais difícil ter uma política que o torna mais independente. Mas para o Brasil isso não é opção, trata-se de uma necessidade.

Nós temos dez vizinhos. Haverá sempre um pluralismo na região. Vai ter sempre um, cujo regime não é o mais querido pelos nossos governantes. Um exemplo disso é que no governo Lula nós tínhamos excelente relação com o Uribe, na Colômbia. Nunca houve problema. Muito pelo contrário, e ele sempre vinha para o Brasil e não havia qualquer mal-estar.

Então, todo esse mito de ser anti, de ser contra, de sempre procurar alguém que você precise odiar ou detestar, sinceramente, isso para mim não me convence nem nas relações pessoais, humanas, da política interna e muito menos na política internacional.

Fonte: César Fraga – Extra Classe


SPMG participa da reunião da CUT/RS que discute desafios na defesa...

O SPMG/Sindicato, que representa os trabalhadores em educação da rede pública municipal de Gravataí, ingressou no Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul com mandado de injunção reivindicando direitos sonegados pelo governo municipal. O objetivo da ação judicial é que seja realizada a revisão geral anual das remunerações dos servidores.
O município não realiza o reajuste das remunerações dos servidores públicos desde 2016. Os servidores já acumulam uma corrosão salarial de mais de 16% do seu poder aquisitivo.
Esta não é a primeira vez, na administração do prefeito Marco Alba, que o Sindicato recorre ao Judiciário para que o direito garantido na Constituição seja respeitado.
Na data-base 2015-2016 o SPMG obteve decisão judicial favorável, da Juíza da Comarca de Gravataí, que obrigou o prefeito a encaminhar a respectiva proposta de negociação à categoria dos trabalhadores em educação. Foi a medida que conquistou o último reajuste.
ASSEMBLEIAS REGIONAIS
O SPMG continua com a realização das assembleias regionais nas escolas, conforme deliberado pelo Conselho de Representantes Sindicais. As escolas, junto com seus representantes organizam a agenda junto com a direção do Sindicato.


JUSTIÇA: Mais uma frente de luta do SPMG pelo respeito à...

As assembleias regionais estão acontecendo e o diálogo do Sindicato com professores e funcionários está motivando novos encontros, em turnos alternados nas escolas. O tema é o mesmo, a situação da data-base 2018 e a necessidade de luta da categoria para barrar o movimento de retrocesso na Educação, que está em curso em Gravataí e em todo o país.
Os trabalhadores em educação são chamados e formular junto com o Sindicato a mobilização e a resistência.
Já foram realizadas diversas assembleias e o SPMG continua atendendo as solicitações das escolas, conforme a última deliberação do Conselho Geral de Representantes, que definiu pela continuidade das reuniões.

PERDAS
Há três anos sem reposição da inflação, as acumuladas ultrapassam 16%. Também há o aumento do percentual de contribuição da previdência para 14%, que representou um confisco de 3% nos salário, e, agora, o aumento no desconto para o IPAG Saúde, que passou para 5,5%, mais 1% no desconto por dependente, que passou a ter alíquota de 2%.

SEM DIREITOS
Enquanto isso, pautas importantes, como a hora atividade da Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental e a carreira dos secretários de escola seguem engavetados, mesmo após compromissos assumidos em outras negociações de data-base.

RETROCESSO
No país, a Educação e outras políticas sociais essenciais para a garantia dos direitos de toda a população, estão com o orçamento congelado por 20 anos. Os reflexos já aparecem. O prefeito reclama da situação financeira e sempre arruma uma desculpa, mas seu partido, o (P)MDB está no comando do país e ajudou a aprovar todas as medidas que implicam na redução das verbas para os municípios.


Escolas aprovam as assembleias do SPMG